quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Universo

Quando você abriu seus olhos para o mundo pela primeira vez, quando criança;
Como as cores eram brilhantes, que joia era o sol;
Que maravilhas eram as estrelas, quão incrivelmente vivas as árvores eram...
E amar de novo e de novo, e ter pessoas às quais somos profundamente apegados, ir dormir e nunca mais acordar...
E o eco das risadas apenas na sua mente... Mas aí o eco some... A memória, os vestígios, tudo se vai.

Todos os seus esforços, todas as suas conquistas, todas as suas realizações virando pó, vazio... Qual é a sensação? O que acontece com você?

A ideia de Deus como um artesão, o arquiteto do universo,
Faz você sentir como se a vida fosse, acima de tudo, importante, que há alguém que se importa.
Tem significado, faz sentido, e que você é valioso aos olhos do Pai.
Mas, depois de um tempo, isso se torna constrangedor, a superstição, o mito, a ideia completamente infundada. Por que alguém acreditaria nisso?

Então, você se torna um ateísta, e aí você se sente péssimo depois disso porque você se livrou de Deus.
Mas isso significa que você se livrou de si mesmo, você não é nada além de uma máquina...
E sua ideia de que você é uma máquina, é apenas uma máquina também. Uma máquina no sistema.

Então você pensa que as coisas são assim mesmo, você se sente hostil ao mundo.
Sente que o mundo é uma armadilha neurológica na qual você foi capturado de alguma forma, preso...
Você vai da maternidade ao crematório e é isso... É só isso...
Então, se você for uma pessoa esperta, você comete suicídio.

Agora eu quero propor outra ideia
O seu verdadeiro eu não é um fantoche que a vida arrasta por aí
O seu eu, sua verdadeira identidade bem no fundo do seu ser, é o universo inteiro.
Você não pode se confinar para o que acontece dentro da pele.
Sua pele não te separa do mundo, ela é uma ponte.
Mas, assim como um ímã se polariza em norte e sul, mas está tudo num só imã,
Assim é com a experiência, que se polariza em "si" mesmo e os "outros", mas são todos um só.

O que você chama de "mundo externo" é tão parte de você quanto seu próprio corpo.
A maioria das pessoas pensa que quando elas abrem os olhos e olham em volta, elas estão vendo a parte exterior...
Parece que você está mesmo por trás dos seus olhos.
Nós não percebemos que vida e morte, preto e branco, bem e mal, ser e não ser, vêm do mesmo centro.

Quando você procura pelo centro particular de seu próprio eu, que é separado de todo o resto, você não conseguirá encontrá-lo.
A única forma de você saber que não está lá, é se procurar o bastante para descobrir que ele não está lá.
Não está mesmo, não existe um "você separado".
Não existe, na realidade física, essa coisa chamada eventos separados.

As pessoas não podem ser libertadas de ilusões com palavras.
Se alguém acredita que a Terra é plana, você não o convencerá do contrário apenas argumentando, ele sabe que é plana.
Ele irá se aproximar da janela e ver que é óbvio, ela parece plana.
Então a única forma de convencê-lo de que não é, é dizer: bom, vamos lá procurar pela beirada.


(Retirado de trechos de várias palestras de Alan Watts)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sua Atenção, Por Favor

Olha, menina, não brinca não
Minha paciência míngua e suspende
Se esvai com palavras em vão
Depois eu sumo e você não entende

Difícil é prever até onde irei
Se longe de você, a visão embaça
E pensar que, tão logo me apaixonei,
Fui surpreendido pela desgraça

Ainda imagino como é te ouvir falar
De todas as vezes que te fiz feliz
E, apesar de tentar, não consigo lidar
Com tudo aquilo que você não diz

Você provoca meus sorrisos sem pudor
E promete que é tão recíproco quanto
Meu último presente é, então, meu rubor
Deixando minha dignidade num canto

Olhe pra mim, mantenha os ouvidos atentos
Posso apenas pedir, encarecidamente,
Que não desperte os meus sentimentos
Se for retorná-los ao estado dormente?

Sigo escrevendo, a menos que eu mude
É inútil enfrentar beleza tão rara
Difícil disfarçar minha inquietude
Ou minha vontade de virar a cara

Só queria, por um momento, ser lembrado
Mas, pro meu azar, infelizmente
Alguém achou que seria muito engraçado
Testar comigo até onde se mente

Depois, só não venha dizer que fui injusto
Se suas plenas palavras só choviam promessas
Supondo meu coração um relicário vetusto
Brinquedo usado, faltando peças

Olha, menina, não brinca não
Já venci o abismo onde uma vez caí
Pense bem antes de soltar minha mão
Depois eu sumo... E aí?

(Cesar Antelo Garcia)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Escancarado

Por muito tempo eu quis ter o sangue mais frio, o coração mais duro, poder me desfazer das pessoas e permitir que elas se desfizessem de mim com facilidade, sem esforço, sem melodrama. Por muito tempo eu desejei isso. Já faz algum tempo que eu consegui. Mas eu estaria mentindo se dissesse que isso me tornou uma pessoa mais feliz.
Eu já conheci e ainda conheço pessoas que são capazes de dar patadas e terminar amizades com pessoas com as quais elas estavam trocando risadas no dia anterior. Por muito tempo eu odiei pessoas assim. Hoje eu sou uma delas, e as entendo.
Isso é fruto de uma alma infeliz. Uma pessoa que já amou demais e cansou de ser pisada. Aprendeu a desconfiar, tornou-se mais sábio, porém mais solitário, na eterna dúvida se existe alguém de coração puro que merece seu sentimento mais nobre.
E se você quer que eu confirme tudo o que você já desconfiava esse tempo todo, então tudo bem, deixarei meu coração escancarado aqui, porque, aparentemente, eu nunca tive problemas em ser aberto com relação ao que eu sinto.
Sim, todos os textos que você leu aqui até hoje e continuará lendo são frutos de uma pessoa infeliz, insatisfeita. E sim, eu tenho os meus motivos, e não cabe a você julgá-los como fúteis ou injustificáveis. Cada um enxerga a cruz que carrega do tamanho que lhe parece real. Você pode enxergar a minha de longe e achá-la insignificante, mas o corpo no qual ela se apóia é o meu. Só eu sei.
Não estou te dizendo isso no intuito de despertar sua compreensão, nem necessariamente sua ajuda, e muito menos a sua compaixão. Apenas quero seu respeito.
E por favor, não se dê ao trabalho de me responder. Não é algo que você possa consertar apenas com palavras.
Nem todos enxergam a vida da mesma forma que você.

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 11 de outubro de 2014

Sussurro

Infesto meu quarto com silêncio
Me isolo num poço de conforto
E a paz soturna domina minha mente
Esqueço as lágrimas dos lamentos
E a dor que teima em não ir embora

Os olhares tortos, as ofensas
Foram todas jogadas no passado
Trancadas num baú sem fechadura
Olhos nos olhos e o peso se vai
Cumprindo sua missão ao me salvar

As roupas atiradas no chão
Tão vazias quanto nossos pensamentos
No momento de calor e tato
Esses dias de saudade me enfraquecem
Mas não canso de percorrer seu corpo

Canto sozinho ao te ver chegar
E me calo ao te ver indo embora
E sua voz é tudo que eu preciso
Para abafar os ecos na minha cabeça
E lembrar do timbre que eu mais amo

Essas são as memórias em mim
Que eu quis te revelar
Com uma pitada de ironia, é verdade
Já que foi você que as fez nascer
Meu sussurro ganha força com seu suspiro

Então me diga em confidência
O que te estimula mais, o que te instiga
E faça os ruídos lá fora desaparecerem
E eu te prometo, sem devaneios
Eu serei seus arrepios essa noite

Eu exploro meus pecados com você
E espero pelo seu indulto
Abuso de ser o motivo da sua insônia
E o motivo de não querer acordar do sonho
Quando finalmente adormece

E se eu te disser que planejei isso?
Me infiltrar em sua pele
Dar forma ao prazer que você buscava
E me apaixonar por você
Qual seria sua reação?

(Cesar Antelo Garcia)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Veleidade

Ordinária foi a manhã em que a conheci
Lamentos surdos pelo asfalto
Se assemelhavam a gotas de chuva
Passos de faróis numa inebriante escuridão
Estalam aos meus ouvidos, me chamando
Seu caminhar de calmaria e alerta
Dispara um sinal de vermelho em meu interior
Um olhar que me matava
E uma insinuação de "siga-me"
Uma avalanche de questões me abordam
E para onde será que ela vai
Depois de cruzar o meu caminho?
Tantas perguntas e um anseio por vê-la de novo
E de ordinária, a manhã seguinte não tinha nada

Cuidadoso eu fui ao adentrar seu território sombrio
Atiçando o mais pacífico imaginário
Ela esquiva, analisa
Hesita em me jogar uma luz, ela é um mistério
Mas ao me recompor como pele cicatrizada
Posso fisgar em sua expressão
Ela foi abusada, tomada de suas virtudes
Seus sonhos e esperanças, forçados para fora
Tento tomar controle, ela ignora
Tira forças do fundo de sua alma
Eu até tremo quando ela tenta me falar
Não venha, você não sabe
É muito tarde, e pobre é o coração do homem
Mas a razão já cedeu, e o feitiço está lançado

Eu fico acordado, vendo isso crescer
Ela me estranha, tão inquieto
E se defende ao não ceder um espaço
Nosso corpo estremece, nossa respiração é fria
Não sinto que posso confiar nela
Mas é em seu corpo que eu quero me perder
Seu beijo arde como ferroada
Inflamando o que já era exacerbado por teimosia
Inconsequência e irracionalidade são nossos temperos
Tão cegos com as vendas que colocamos
Tão certos de que essa não será a última noite
E que não há problema nisso
Mergulho num sono negro como seus cabelos
E provo do sabor amargo de seu abandono pela manhã

Venha comigo e desapareça no meu covil
Ninguém dará por sua falta mas eu só existo com você
Criminosa é a maneira como desejo seu coração para mim
Ainda imagino minha cara ao vê-la tentando falar
É assombroso como ela me tem tão estático
Não é hora nem lugar para ir devagar
Deslizo minha boca pelo seu peito
Daria minha vida para saber como ela se sente
Me contento com o reflexo do abajur
Iluminando seu olho morto de mel
Minha cabeça dói mas eu me recuso a ir
Ela parece tão cansada, mas se sente em paz
Porém o corpo não acompanha o aperto no coração
Ao ler o bilhete envolto do cheiro da solidão

Ela foi e deixou a porta aberta para a dor entrar
Tudo que eu sabia chegou para me aterrorizar
Tolo em acreditar na promessa de um demônio
"Eu irei te quebrar com cuidado"
Não existe zelo ao se manejar um coração
Principalmente um que não vale a pena ser salvo
Que passei a vida inteira desmanchando
Começo minha jornada pelo manto da madrugada
Prepare seu temor, pois não trago boas notícias
Um vulto macabro de ódio traz então minha vingança
Cicatrizes nascidas no dia em que me condenou a te procurar
E agora carrego essa maldição de te caçar pelos becos
Mas minha fúria encontrará paz em seu lamento
E isso é tudo o que eu sei...

(Cesar Antelo Garcia)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Súplica

Amor meu, de outrora correspondido
Brisa que enche de vida
Que há muito me aquecia
E hoje, no entanto, encontra-se perdido

Sua aura de encanto inigualável
De halo imenso, que tudo envolve
Meus risos nunca foram tão verdadeiros
Quanto os disparados ao seu lado

Mas como toda fonte luminosa
Um dia se apaga e tudo escurece
Não por fragilidade do afeto
Mas por querer do destino

Ah, anjo das asas incansáveis
Sempre compreendeu sem maior dificuldade
Voe para longe e leve sua paz
Antes que minhas trevas te devastem

Suplico, não fique brava
Se eu tiver que pedir
Sem jeito, sem o direito
Que me compreenda mais essa vez

(Cesar Antelo Garcia)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Teu Riso

Canta o teu riso esplêndida sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de pratas
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
Cítara suave dos apaixonados
Sonorizando os sonhos já passados
Cantando sempre uma lânguida volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos
Quando úmido de beijos em ressábios
Teu riso espanta, despertando sonhos...

Ah! Num delírio de ventura louca
Vai-se minh'alma toda nos teus beijos
Ri-se o meu coração na tua boca!

(Maximo Antelo)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Última Chamada

Você sai pra sentir novas atmosferas, novos sons, novas luzes, novos lugares, novos rostos... 
E acaba voltando pior do que imaginava. 
E você sabe que a culpa é toda sua. Toda. 
Você nasceu assim. E não vai mudar. 
Você não sabe mudar. Você tem medo. Você tem essa sina. 
E você vai continuar desejando poder aceitar tudo como aceitou hoje. Você espera isso. 
Porque o dia que você não aceitar mais vai ser o dia em que você perdeu a esperança. 
E quando você perder a esperança... 
Eu realmente vou temer por você...

(Cesar Antelo Garcia)

domingo, 29 de junho de 2014

Lembranças

Eu vi aquela esquina
Lembrei de você
De quando caminhou para mim
Enquanto eu te esperava ali mesmo

Eu vi uma folha no chão
Lembrei de você
Do beijo que demos
E compartilhamos com as árvores ao redor

Eu vi uma cor
Lembrei de você
Da roupa que estava usando
Na primeira vez que te vi chorar

Eu vi um verso
Lembrei de você
Pensei em guardá-lo
Para recitar para você algum dia

Eu vi uma nuvem
Lembrei de você
De quando você me falou de sua vontade
De comer algodão doce

Eu vi uma luz
Lembrei de você
De como sua expressão
Parecia iluminar minha vida

Eu vi a chuva cair
Lembrei de você
De como tudo ficou mais frio
Depois que você resolveu ir

Eu vi seu sorriso
Lembrei dos nossos de antigamente
E aí eu lembrei
Que você nunca mais lembrou de mim

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 3 de maio de 2014

Monólogo Compartilhado

Abraços não têm graça
Quando são apenas fantasiados
Companhias só transformam
Quando são de outras pessoas

Será que todos os dias são cinzas assim
Ou é minha visão que anda envelhecendo?
Discutir com o vento
Não tem surtido muito efeito

Eu preciso gritar pra solidão
Que a presença dela não é bem-vinda
Mas até minha voz parece mais fraca
Sem vontade de sair

Pra quê visitar o mundo exterior, afinal?
Nada nunca muda, está sempre igual
A inércia tomou conta da atmosfera
E meu corpo se acostumou à dormência

Todos estão distraídos encarando a beleza da vida
E eu fiquei aqui me perguntando
Será que se esqueceram de me avisar
Pra qual direção olhar?

Ou talvez eu não tenha acordado
E esteja quebrado demais para acreditar
Que ainda há algo para ver
Algo a que vale a pena se agarrar

Minhas pernas cansaram de sustentar
O peso da incerteza, desolação
Sentimento de desperdício
Depois de tudo que eu tentei fazer certo

Eu sempre acabo voltando aqui
Depois de cada dia de caminhada
Ouvindo a mesma voz familiar
Me questionando o motivo disso tudo

É tudo tão bonito assim lá fora?
Ou as pessoas escondem a feiura
Por trás de seus sorrisos insistentes
Exagerados e contentes?

Tudo isso é complicado demais
Talvez porque eu pense muito
É que eu passo bastante tempo comigo mesmo
E, às vezes, isso cansa...

(Cesar Antelo Garcia)

domingo, 30 de março de 2014

O Medo Do Amor

"Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe por quê. 

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade. 

E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. 

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. 

Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo."


Martha Medeiros

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Apenas Um Fragmento...

"[...] Estranho como uma noite qualquer poderia aproximá-los tão de repente. Eles, que se viam tantas vezes, mas nunca trocaram mais que dez palavras nas raras conversas que tiveram, agora caminham juntos pela rua tentando achar um jeito de arquitetar um plano decente de diálogo, enquanto suas mentes tentam se recuperar do turbilhão que sofreram por causa das últimas horas.
      Lágrimas, soluços, primeiros socorros e perguntas. Muitas perguntas. Não é sempre que acontece um assalto por essas bandas, e com certeza não é sempre que um garoto com quem você mal tem intimidade vai se arriscar pra te salvar de um. As coisas aconteceram muito rápido para que ela lembrasse de detalhes que ajudassem a polícia a pegar o assaltante. Na verdade, ela não foi mesmo de muita ajuda. Mas ela dificilmente vai esquecer de como aquele garoto tímido que trabalha na lanchonete se tornaria seu salvador. É improvável que a polícia consiga prender o suspeito, mas o que se há de fazer? Talvez o melhor seja sair daqui. Não é surpresa que ele tenha educadamente pedido para acompanhá-la até em casa.
      No caminho de casa, ela percebe que o frio que sentia por essas ruas não incomoda mais tanto quanto antes. Seria a presença dele? Bobagem, eles mal se conhecem. Na verdade estão ali, se esforçando para criar assunto. Parece uma tarefa mais difícil do que andar sem escorregar na calçada parcialmente congelada. Às vezes ela se sente um pouco culpada por deixar de dar ouvidos ao que o rapaz de cabelos negros diz para vagar por seus pensamentos, imaginando que toda a segurança que a presença dele lhe traz pode desaparecer no momento em que ela entrar em seu quarto e se encontrar sozinha de novo, nessa noite especialmente mais escura. Ao mesmo tempo, ela se alegra em saber que o sorriso dele e sua voz levemente rouca a fazem esquecer dos terríveis momentos de horas atrás.
      De alguma forma, o cheiro da neve fresca parece combinar com o momento, e ela tem aquela sensação de leveza. Jamais esperava que a noite pudesse terminar assim. Parece que uma descarga de adrenalina realmente faz aguçar os sentidos, pois as luzes dos postes parecem ser curiosamente mais chamativas, e ela jamais admitiria, mas sente uma enorme vontade de satisfazer o seu tato ao segurar a mão dele. Seu coração palpitava e as palavras já pareciam fluir com mais naturalidade quando eles chegaram à porta de sua casa.

- ...Então até mais!
- Até! E, novamente, muito obrigada... Por tudo.
- Não por isso.

   Uma pausa se faz e ele a encara, fazendo com que o estômago dela fique da mesma temperatura que a rua lá fora.

- O que foi?
- Nada...
- Diga!
- ...É que por um instante eu olhei pra você e fiquei sem reação. Como se tivesse me encantado.
    
   Ela sorri sem jeito e desvia o olhar.

- Que será que eu faço?
- Como assim?
- Para fazer você se sentir como eu me senti agora. O que eu faço?
- Não sei...
- Bom, eu vou tentar uma coisa. Depois você me diz se deu certo...

    E de súbito, ele a puxou para si e selou o momento com um beijo cálido, sem tempo para reação. De repente, nada mais existia. Ela mal conseguia sentir o chão sob seus pés. Tudo girava desordenadamente, cores se misturavam, mesmo naquele escuro do fechar dos olhos. Nada fazia sentido, porém tudo estava mais claro que nunca. Ela foi carregada por cima das nuvens, como numa roda-gigante e a única fonte de segurança na qual ela poderia se apoiar para não cair, eram os braços dele."

(Cesar Antelo Garcia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ode À Primavera

Se eu quisesse paz em minha alma
O faria de maneiras que sempre recusei
Mas diante de sua calma
Me calei

Andava por avenidas e desertos de sonhos
Cantos entoados vindos das pegadas que deixei
Sua luz, por entre o praxe enfadonho,
Eu encontrei

Mil rostos preenchem a rua
É sempre o seu que eu acabo por lembrar
O brilho que dispara a lua
Se engrandece no seu caminhar

Serena, alma de perfumes cuja essência perdura
Só não me julgues por sempre me perder
Na sua inabalável doçura
Que eu hei de rever

Encanta e surpreende, ouso, e digo mais
Digo ou calo, meu impasse
Mas deixá-la ir, sem antes ouvir, jamais
Meu apreço não usa disfarce

Quero, de uma vez por todas, que me ensine
Que dom é esse que espanta a dor
Fazendo com que meu olhar se ilumine
Disseminando amor?

Presença que diverte, atrai e norteia
Afago-te a testa assim que partires
Guardo comigo o rosto que some na areia
E reflete na íris

Não temo a tormenta que vem por aí
Pode vir solidão, receio, coração despedaçado
Eu sei que quando ela ri
Toda ausência vira passado

Lembro de sua feição daquela vez
Cuidei para que não escapasse da memória
A extroversão da timidez
O presságio de uma bela história

É mais um dia que eu te dou a certeza
De explicar, com versos à sua altura,
Porquê tão sábia foi a natureza
Por te fazer tão pura

Apagou de mim esse vazio que aqui jaz
Seguiu seu caminho sem se preocupar com desvios
E em busca de sua própria paz
Escolheu o balanço dos navios

Rogo para que a primavera atenda aos meus apelos
Não permita que suma dos olhos dela as centelhas
Que corra livre com o vento nos cabelos
Por entre beija-flores e abelhas

E se ela tiver que ir
Que leve de mim apenas o que lhe fizer bem
Que lembre-se apenas de quando a fiz sorrir
E que o sorriso dela viva em mim também

Sem uma guia, sou apenas um andarilho
Em busca de um calor que me abrace
Me resta contemplar o brilho
Que hoje nasce

Sorrisos brotados brindam sua saída
E com eles eu me cubro
Por ter conhecido a mais bela flor trazida à vida

Em um certo 15 de outubro.

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 7 de setembro de 2013

Contra Mim

Quem luta contra mim ainda não sabe o que é perder
Quando eu me encontro novamente no ringue
Dispara em minha direção sem dar chance de me defender
Ainda que a palavra "piedade" exista em sua consciência
Duvido que seja uma de suas virtudes cultivadas desde nascença

Quem luta contra mim conhece minhas fraquezas
Quando eu procuro uma brecha para me manter de pé
Não tarda a me atingir com toda sua aspereza
Ignora meus conhecimentos e joga meus medos contra mim
Sabe que assim será mais fácil de me fazer desistir

Quem luta contra mim não tem cara
Quando eu penso ter compreendido
Aparece de surpresa e mostra que eu não aprendi nada
Não sei se é professor, não sei se é agressor, só sei que
Sempre mostra que não estou forte o suficiente para a próxima lição

Quem luta contra mim tem punhos de aço e coração feroz
Quando eu paro e medito em busca de uma solução
Vem gritando e desfazendo tudo de forma veloz
Invade minha cabeça e invalida qualquer epifania
Apaga as respostas e me deixa sem saída

Quem luta contra mim deixa uma trilha de desastre
Quando eu pareço ter achado um jeito de superar
Refuta minha tentativa com a facilidade de um mestre
Me priva de todo o aprendizado
E me faz reviver todo o sofrimento como se fosse o primeiro

Quem luta contra mim não me deixa em paz
Quando eu tento discutir e entender
Me contraria e me humilha de maneira eficaz
Não conhece diplomacia, não conhece acordo
Não tem vergonha do que faz, não tem medo de me ver morto

Quem luta contra mim parece estar cada vez mais forte
Quando eu me levanto para revidar
Se esguia e desfere o contragolpe
Fuzila minha estrutura com seus olhos de navalha
E me chuta quando ainda me encontro no chão

Quem luta contra mim
Sou eu mesmo.


(Cesar Antelo Garcia)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Saudade

Eu olhei pela janela
Vi passos em busca de atenção
Eu não vou fingir que ignorei
Apenas não soube como agir

Se alguém sente sua falta
Torne-se presente para quem deseja sua presença
Eu não vou fingir que não tentei
Apenas não vejo reação alguma

Eu sabia que as cores sumiriam
Mesmo quando até um sorriso branco era colorido
Eu não vou fingir que não sorrio
Apenas não tenho mais sua ajuda

Não adianta forçar importância
A escolha nunca foi sua
Eu não vou fingir que isso é fácil de aceitar
Apenas não quero te ver sofrer

E quando um dia você precisar
Sua importância pra mim nunca mudou
Eu não vou fingir que pensei em esquecer
Apenas prometa ser verdadeira comigo...


(Cesar Antelo Garcia)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Magnolia

"Ao passo que encaro seu caminhar 
Me pego no meio de uma multidão 
Mas antes que possa de mim se afastar 
Me posto a revelar o meu coração 

Espírito cuja essência transborda verdade 
Num reino que poucos ousam difamar 
Onde longe se esgueira a simplicidade 
Em seus braços ela vem a se encontrar 

Em busca de onde possa ouvir sua voz 
Cuja leveza de uma brisa ostenta 
Sigo como a água em direção à foz 
A fim de te achar, meu ritmo se sustenta 

Diante do rosto onde meu olhar se enraíza 
Vacilo ao me deparar com a visão de um anjo 
Arrisco versos dignos de sua guisa 
Meu bem, para você fiz este arranjo 

Em meio ao tropel a solitária estrela devaneia 
Absorto em meus pensamentos, onde eu a tinha 
Ungida de mistério e sedução de uma sereia 
Todos atentos ao desfilar da rainha!

Em seu olhar, a transparência de um prisma 
O nome dela é carisma 
Em seu coração, a pureza se aloca
O nome dela é carioca 
Em seu discurso, a sinceridade abre caminho 
O nome dela é carinho 
Em sua alma, exígua de malícia 
O nome dela é carícia..."

(Cesar Antelo Garcia) 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Monossilábico

Dê a mim a paz do céu
De um sol num tom de mel
Vem e me trai sem dó
Eis o meu eu nu, em pó.

Em sons de dor, não ter a voz
Pra ler a cor em um de nós
Te dar a flor na mão
E ver o sim em um não.


Eu, tão só, não dá pra crer
Fui, mas só pra não ver
O mal que me fez o sol teu
E ter fé no que há de ser
Meu.


(Cesar Antelo Garcia)

Foi

Foi.
Foi um lapso da mediocridade.
Uma distração da inércia, do tédio.
Uma surpresa. Arrebatadora. Inesperada.
Como não ser inesperada, sendo surpresa?
E se o seu desfecho fosse esperado? Ainda assim seria surpresa?

Foi.
Foi um risco no céu.
Um momento, multiplicado em vários.
Bivalentes. Impulsivos. Inconsequentes.
Um texto mal acabado. Iniciado por uma mão torta, trêmula.
Letras bonitas. Letras feias.

Foi.
Foi um amor de verão.
Um percalço na linearidade, na mesmice.
Uma renovação, na verdade. Uma novidade.
Um depósito de sonhos, fonte de força.
Realizações não realizadas. Presas. Desesperadas.

Foi.
Foi mais que isso.
Como sempre será, até que não seja mais.
Uma tela de diamantes num fundo azul marinho.
Um grito desesperado para ser calado.
Mas libertado mesmo assim. Não bem vindo.

Foi.
Foi o que deveria ter acontecido.
Pra te fazer buscar um porquê.
E quem precisa de porquê?
A vida não se preocupa com o que você precisa.
Se diverte ao ver sua alma em transe. Mutante. Agonizante.

Foi.
Foi tudo o que você queria.
Foi?
Foi necessário. Foi arranjado. Foi novo.
Foi desafiador. Foi discutido. Foi interrompido.
Foi devastado. Foi misterioso. Foi incógnito.
Foi marcante. Foi difícil. Foi lindo.
Foi você.
Você.
Se foi...

(Cesar Antelo Garcia)

A Promessa

Já faz anos. Sua memória continua gritante em mim. Seu rosto, seu jeito, sua voz, seu cheiro. Tudo como se ainda estivesse do meu lado. Mas já faz anos que não está mais.
Me levanto e olho pela janela. Procuro as surpresas que o novo Sol me traz nesse dia. Encontro apenas minhas obrigações costumeiras.
Abro o armário para me atirar na vida mais uma vez. Mais um dia vazio.
A campainha toca. Minha mãe vai atender enquanto perambulo pelas roupas. Eis que num súbito movimento, ela para diante da porta com uma expressão otimista. Anuncia: é ela. Arregalo meus olhos e corro em direção à sacada. É verdade. Ela está ali. Me viro e vou de encontro ao meu vislumbre.
Minhas pernas mudam de longos saltos para passos curtos. Fracas, incontroláveis, trêmulas. Imóveis. Todas as cores começam a se misturar e desfazer a figura do que há em volta. De repente, tudo fica preto.
Abro os olhos com o coração a mil. Olho em volta duas, três, quatro vezes. Mesma escuridão. Chamo pelo seu nome, primeiro, com um lamento, seguido de um sussurro abafado.
Finalmente olho para frente e me ponho a chorar. Forço para que o choro seja cada vez mais compulsivo, pois as lágrimas são como os demônios que acabaram de chegar para zombar de mim. Preciso me livrar deles.
Chega o momento em que minhas pálpebras se cansam de abrir, pois sei que continuar a te procurar aqui é inútil. Elas permanecem fechadas, até que outro sonho vem e apaga, por algumas horas, a tortura, me transportando para uma nova promessa.
Amanhã é um novo dia.

(Cesar Antelo Garcia)

Três Tempos

Ontem se fez a peculiaridade e confidencialidade de um baile de máscaras
E 1 e 2 e 3... E o ritmo se perdeu quando você enjoou da música
Você saiu por aquela porta, mas o maestro continuou seu espetáculo
E aqui estou eu. Ainda há pessoas que, como eu, querem aprender os movimentos
Ainda há quem procure entender seu papel, e a lição em cada perda

Hoje a melodia segue mais suave, dita o rumo da aprendizagem
Superação faz parte, pois cair também faz
Máxima que se torna notória com o destino constantemente puxando seu tapete
Mas a instrução está lá, e meu suor e minhas lágrimas caindo do rosto são a prova de que eu também estou

Amanhã estarei cada vez mais perto de conseguir
Curiosamente sem saber se um dia serei capaz de tal façanha
O que conta é que persisti, ao lado dos outros
E um dia você estará de volta, na janela da sala de aula, observando o meu triunfo

E ontem eu caí
E hoje eu levantei
E amanhã vencerei
Em três tempos eu canto a minha dor, ouço meu lamento e reúno minhas forças
Sigo desafiando a gravidade e as leis de tudo
Para entender, refletir, descobrir e aprender os passos da dança da vida.

(Cesar Antelo Garcia)