segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Escancarado

Por muito tempo eu quis ter o sangue mais frio, o coração mais duro, poder me desfazer das pessoas e permitir que elas se desfizessem de mim com facilidade, sem esforço, sem melodrama. Por muito tempo eu desejei isso. Já faz algum tempo que eu consegui. Mas eu estaria mentindo se dissesse que isso me tornou uma pessoa mais feliz.
Eu já conheci e ainda conheço pessoas que são capazes de dar patadas e terminar amizades com pessoas com as quais elas estavam trocando risadas no dia anterior. Por muito tempo eu odiei pessoas assim. Hoje eu sou uma delas, e as entendo.
Isso é fruto de uma alma infeliz. Uma pessoa que já amou demais e cansou de ser pisada. Aprendeu a desconfiar, tornou-se mais sábio, porém mais solitário, na eterna dúvida se existe alguém de coração puro que merece seu sentimento mais nobre.
E se você quer que eu confirme tudo o que você já desconfiava esse tempo todo, então tudo bem, deixarei meu coração escancarado aqui, porque, aparentemente, eu nunca tive problemas em ser aberto com relação ao que eu sinto.
Sim, todos os textos que você leu aqui até hoje e continuará lendo são frutos de uma pessoa infeliz, insatisfeita. E sim, eu tenho os meus motivos, e não cabe a você julgá-los como fúteis ou injustificáveis. Cada um enxerga a cruz que carrega do tamanho que lhe parece real. Você pode enxergar a minha de longe e achá-la insignificante, mas o corpo no qual ela se apóia é o meu. Só eu sei.
Não estou te dizendo isso no intuito de despertar sua compreensão, nem necessariamente sua ajuda, e muito menos a sua compaixão. Apenas quero seu respeito.
E por favor, não se dê ao trabalho de me responder. Não é algo que você possa consertar apenas com palavras.
Nem todos enxergam a vida da mesma forma que você.

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 11 de outubro de 2014

Sussurro

Infesto meu quarto com silêncio
Me isolo num poço de conforto
E a paz soturna domina minha mente
Esqueço as lágrimas dos lamentos
E a dor que teima em não ir embora

Os olhares tortos, as ofensas
Foram todas jogadas no passado
Trancadas num baú sem fechadura
Olhos nos olhos e o peso se vai
Cumprindo sua missão ao me salvar

As roupas atiradas no chão
Tão vazias quanto nossos pensamentos
No momento de calor e tato
Esses dias de saudade me enfraquecem
Mas não canso de percorrer seu corpo

Canto sozinho ao te ver chegar
E me calo ao te ver indo embora
E sua voz é tudo que eu preciso
Para abafar os ecos na minha cabeça
E lembrar do timbre que eu mais amo

Essas são as memórias em mim
Que eu quis te revelar
Com uma pitada de ironia, é verdade
Já que foi você que as fez nascer
Meu sussurro ganha força com seu suspiro

Então me diga em confidência
O que te estimula mais, o que te instiga
E faça os ruídos lá fora desaparecerem
E eu te prometo, sem devaneios
Eu serei seus arrepios essa noite

Eu exploro meus pecados com você
E espero pelo seu indulto
Abuso de ser o motivo da sua insônia
E o motivo de não querer acordar do sonho
Quando finalmente adormece

E se eu te disser que planejei isso?
Me infiltrar em sua pele
Dar forma ao prazer que você buscava
E me apaixonar por você
Qual seria sua reação?

(Cesar Antelo Garcia)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Veleidade

Ordinária foi a manhã em que a conheci
Lamentos surdos pelo asfalto
Se assemelhavam a gotas de chuva
Passos de faróis numa inebriante escuridão
Estalam aos meus ouvidos, me chamando
Seu caminhar de calmaria e alerta
Dispara um sinal de vermelho em meu interior
Um olhar que me matava
E uma insinuação de "siga-me"
Uma avalanche de questões me abordam
E para onde será que ela vai
Depois de cruzar o meu caminho?
Tantas perguntas e um anseio por vê-la de novo
E de ordinária, a manhã seguinte não tinha nada

Cuidadoso eu fui ao adentrar seu território sombrio
Atiçando o mais pacífico imaginário
Ela esquiva, analisa
Hesita em me jogar uma luz, ela é um mistério
Mas ao me recompor como pele cicatrizada
Posso fisgar em sua expressão
Ela foi abusada, tomada de suas virtudes
Seus sonhos e esperanças, forçados para fora
Tento tomar controle, ela ignora
Tira forças do fundo de sua alma
Eu até tremo quando ela tenta me falar
Não venha, você não sabe
É muito tarde, e pobre é o coração do homem
Mas a razão já cedeu, e o feitiço está lançado

Eu fico acordado, vendo isso crescer
Ela me estranha, tão inquieto
E se defende ao não ceder um espaço
Nosso corpo estremece, nossa respiração é fria
Não sinto que posso confiar nela
Mas é em seu corpo que eu quero me perder
Seu beijo arde como ferroada
Inflamando o que já era exacerbado por teimosia
Inconsequência e irracionalidade são nossos temperos
Tão cegos com as vendas que colocamos
Tão certos de que essa não será a última noite
E que não há problema nisso
Mergulho num sono negro como seus cabelos
E provo do sabor amargo de seu abandono pela manhã

Venha comigo e desapareça no meu covil
Ninguém dará por sua falta mas eu só existo com você
Criminosa é a maneira como desejo seu coração para mim
Ainda imagino minha cara ao vê-la tentando falar
É assombroso como ela me tem tão estático
Não é hora nem lugar para ir devagar
Deslizo minha boca pelo seu peito
Daria minha vida para saber como ela se sente
Me contento com o reflexo do abajur
Iluminando seu olho morto de mel
Minha cabeça dói mas eu me recuso a ir
Ela parece tão cansada, mas se sente em paz
Porém o corpo não acompanha o aperto no coração
Ao ler o bilhete envolto do cheiro da solidão

Ela foi e deixou a porta aberta para a dor entrar
Tudo que eu sabia chegou para me aterrorizar
Tolo em acreditar na promessa de um demônio
"Eu irei te quebrar com cuidado"
Não existe zelo ao se manejar um coração
Principalmente um que não vale a pena ser salvo
Que passei a vida inteira desmanchando
Começo minha jornada pelo manto da madrugada
Prepare seu temor, pois não trago boas notícias
Um vulto macabro de ódio traz então minha vingança
Cicatrizes nascidas no dia em que me condenou a te procurar
E agora carrego essa maldição de te caçar pelos becos
Mas minha fúria encontrará paz em seu lamento
E isso é tudo o que eu sei...

(Cesar Antelo Garcia)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Súplica

Amor meu, de outrora correspondido
Brisa que enche de vida
Que há muito me aquecia
E hoje, no entanto, encontra-se perdido

Sua aura de encanto inigualável
De halo imenso, que tudo envolve
Meus risos nunca foram tão verdadeiros
Quanto os disparados ao seu lado

Mas como toda fonte luminosa
Um dia se apaga e tudo escurece
Não por fragilidade do afeto
Mas por querer do destino

Ah, anjo das asas incansáveis
Sempre compreendeu sem maior dificuldade
Voe para longe e leve sua paz
Antes que minhas trevas te devastem

Suplico, não fique brava
Se eu tiver que pedir
Sem jeito, sem o direito
Que me compreenda mais essa vez

(Cesar Antelo Garcia)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Teu Riso

Canta o teu riso esplêndida sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de pratas
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
Cítara suave dos apaixonados
Sonorizando os sonhos já passados
Cantando sempre uma lânguida volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos
Quando úmido de beijos em ressábios
Teu riso espanta, despertando sonhos...

Ah! Num delírio de ventura louca
Vai-se minh'alma toda nos teus beijos
Ri-se o meu coração na tua boca!

(Maximo Antelo)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Última Chamada

Você sai pra sentir novas atmosferas, novos sons, novas luzes, novos lugares, novos rostos... 
E acaba voltando pior do que imaginava. 
E você sabe que a culpa é toda sua. Toda. 
Você nasceu assim. E não vai mudar. 
Você não sabe mudar. Você tem medo. Você tem essa sina. 
E você vai continuar desejando poder aceitar tudo como aceitou hoje. Você espera isso. 
Porque o dia que você não aceitar mais vai ser o dia em que você perdeu a esperança. 
E quando você perder a esperança... 
Eu realmente vou temer por você...

(Cesar Antelo Garcia)

domingo, 29 de junho de 2014

Lembranças

Eu vi aquela esquina
Lembrei de você
De quando caminhou para mim
Enquanto eu te esperava ali mesmo

Eu vi uma folha no chão
Lembrei de você
Do beijo que demos
E compartilhamos com as árvores ao redor

Eu vi uma cor
Lembrei de você
Da roupa que estava usando
Na primeira vez que te vi chorar

Eu vi um verso
Lembrei de você
Pensei em guardá-lo
Para recitar para você algum dia

Eu vi uma nuvem
Lembrei de você
De quando você me falou de sua vontade
De comer algodão doce

Eu vi uma luz
Lembrei de você
De como sua expressão
Parecia iluminar minha vida

Eu vi a chuva cair
Lembrei de você
De como tudo ficou mais frio
Depois que você resolveu ir

Eu vi seu sorriso
Lembrei dos nossos de antigamente
E aí eu lembrei
Que você nunca mais lembrou de mim

(Cesar Antelo Garcia)