terça-feira, 30 de setembro de 2014

Veleidade

Ordinária foi a manhã em que a conheci
Lamentos surdos pelo asfalto
Se assemelhavam a gotas de chuva
Passos de faróis numa inebriante escuridão
Estalam aos meus ouvidos, me chamando
Seu caminhar de calmaria e alerta
Dispara um sinal de vermelho em meu interior
Um olhar que me matava
E uma insinuação de "siga-me"
Uma avalanche de questões me abordam
E para onde será que ela vai
Depois de cruzar o meu caminho?
Tantas perguntas e um anseio por vê-la de novo
E de ordinária, a manhã seguinte não tinha nada

Cuidadoso eu fui ao adentrar seu território sombrio
Atiçando o mais pacífico imaginário
Ela esquiva, analisa
Hesita em me jogar uma luz, ela é um mistério
Mas ao me recompor como pele cicatrizada
Posso fisgar em sua expressão
Ela foi abusada, tomada de suas virtudes
Seus sonhos e esperanças, forçados para fora
Tento tomar controle, ela ignora
Tira forças do fundo de sua alma
Eu até tremo quando ela tenta me falar
Não venha, você não sabe
É muito tarde, e pobre é o coração do homem
Mas a razão já cedeu, e o feitiço está lançado

Eu fico acordado, vendo isso crescer
Ela me estranha, tão inquieto
E se defende ao não ceder um espaço
Nosso corpo estremece, nossa respiração é fria
Não sinto que posso confiar nela
Mas é em seu corpo que eu quero me perder
Seu beijo arde como ferroada
Inflamando o que já era exacerbado por teimosia
Inconsequência e irracionalidade são nossos temperos
Tão cegos com as vendas que colocamos
Tão certos de que essa não será a última noite
E que não há problema nisso
Mergulho num sono negro como seus cabelos
E provo do sabor amargo de seu abandono pela manhã

Venha comigo e desapareça no meu covil
Ninguém dará por sua falta mas eu só existo com você
Criminosa é a maneira como desejo seu coração para mim
Ainda imagino minha cara ao vê-la tentando falar
É assombroso como ela me tem tão estático
Não é hora nem lugar para ir devagar
Deslizo minha boca pelo seu peito
Daria minha vida para saber como ela se sente
Me contento com o reflexo do abajur
Iluminando seu olho morto de mel
Minha cabeça dói mas eu me recuso a ir
Ela parece tão cansada, mas se sente em paz
Porém o corpo não acompanha o aperto no coração
Ao ler o bilhete envolto do cheiro da solidão

Ela foi e deixou a porta aberta para a dor entrar
Tudo que eu sabia chegou para me aterrorizar
Tolo em acreditar na promessa de um demônio
"Eu irei te quebrar com cuidado"
Não existe zelo ao se manejar um coração
Principalmente um que não vale a pena ser salvo
Que passei a vida inteira desmanchando
Começo minha jornada pelo manto da madrugada
Prepare seu temor, pois não trago boas notícias
Um vulto macabro de ódio traz então minha vingança
Cicatrizes nascidas no dia em que me condenou a te procurar
E agora carrego essa maldição de te caçar pelos becos
Mas minha fúria encontrará paz em seu lamento
E isso é tudo o que eu sei...

(Cesar Antelo Garcia)