Quando você abriu seus olhos para o mundo pela primeira vez, quando criança;
Como as cores eram brilhantes, que joia era o sol;
Que maravilhas eram as estrelas, quão incrivelmente vivas as árvores eram...
E amar de novo e de novo, e ter pessoas às quais somos profundamente apegados, ir dormir e nunca mais acordar...
E o eco das risadas apenas na sua mente... Mas aí o eco some... A memória, os vestígios, tudo se vai.
Todos os seus esforços, todas as suas conquistas, todas as suas realizações virando pó, vazio... Qual é a sensação? O que acontece com você?
A ideia de Deus como um artesão, o arquiteto do universo,
Faz você sentir como se a vida fosse, acima de tudo, importante, que há alguém que se importa.
Tem significado, faz sentido, e que você é valioso aos olhos do Pai.
Mas, depois de um tempo, isso se torna constrangedor, a superstição, o mito, a ideia completamente infundada. Por que alguém acreditaria nisso?
Então, você se torna um ateísta, e aí você se sente péssimo depois disso porque você se livrou de Deus.
Mas isso significa que você se livrou de si mesmo, você não é nada além de uma máquina...
E sua ideia de que você é uma máquina, é apenas uma máquina também. Uma máquina no sistema.
Então você pensa que as coisas são assim mesmo, você se sente hostil ao mundo.
Sente que o mundo é uma armadilha neurológica na qual você foi capturado de alguma forma, preso...
Você vai da maternidade ao crematório e é isso... É só isso...
Então, se você for uma pessoa esperta, você comete suicídio.
Agora eu quero propor outra ideia
O seu verdadeiro eu não é um fantoche que a vida arrasta por aí
O seu eu, sua verdadeira identidade bem no fundo do seu ser, é o universo inteiro.
Você não pode se confinar para o que acontece dentro da pele.
Sua pele não te separa do mundo, ela é uma ponte.
Mas, assim como um ímã se polariza em norte e sul, mas está tudo num só imã,
Assim é com a experiência, que se polariza em "si" mesmo e os "outros", mas são todos um só.
O que você chama de "mundo externo" é tão parte de você quanto seu próprio corpo.
A maioria das pessoas pensa que quando elas abrem os olhos e olham em volta, elas estão vendo a parte exterior...
Parece que você está mesmo por trás dos seus olhos.
Nós não percebemos que vida e morte, preto e branco, bem e mal, ser e não ser, vêm do mesmo centro.
Quando você procura pelo centro particular de seu próprio eu, que é separado de todo o resto, você não conseguirá encontrá-lo.
A única forma de você saber que não está lá, é se procurar o bastante para descobrir que ele não está lá.
Não está mesmo, não existe um "você separado".
Não existe, na realidade física, essa coisa chamada eventos separados.
As pessoas não podem ser libertadas de ilusões com palavras.
Se alguém acredita que a Terra é plana, você não o convencerá do contrário apenas argumentando, ele sabe que é plana.
Ele irá se aproximar da janela e ver que é óbvio, ela parece plana.
Então a única forma de convencê-lo de que não é, é dizer: bom, vamos lá procurar pela beirada.
(Retirado de trechos de várias palestras de Alan Watts)