domingo, 29 de junho de 2014

Lembranças

Eu vi aquela esquina
Lembrei de você
De quando caminhou para mim
Enquanto eu te esperava ali mesmo

Eu vi uma folha no chão
Lembrei de você
Do beijo que demos
E compartilhamos com as árvores ao redor

Eu vi uma cor
Lembrei de você
Da roupa que estava usando
Na primeira vez que te vi chorar

Eu vi um verso
Lembrei de você
Pensei em guardá-lo
Para recitar para você algum dia

Eu vi uma nuvem
Lembrei de você
De quando você me falou de sua vontade
De comer algodão doce

Eu vi uma luz
Lembrei de você
De como sua expressão
Parecia iluminar minha vida

Eu vi a chuva cair
Lembrei de você
De como tudo ficou mais frio
Depois que você resolveu ir

Eu vi seu sorriso
Lembrei dos nossos de antigamente
E aí eu lembrei
Que você nunca mais lembrou de mim

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 3 de maio de 2014

Monólogo Compartilhado

Abraços não têm graça
Quando são apenas fantasiados
Companhias só transformam
Quando são de outras pessoas

Será que todos os dias são cinzas assim
Ou é minha visão que anda envelhecendo?
Discutir com o vento
Não tem surtido muito efeito

Eu preciso gritar pra solidão
Que a presença dela não é bem-vinda
Mas até minha voz parece mais fraca
Sem vontade de sair

Pra quê visitar o mundo exterior, afinal?
Nada nunca muda, está sempre igual
A inércia tomou conta da atmosfera
E meu corpo se acostumou à dormência

Todos estão distraídos encarando a beleza da vida
E eu fiquei aqui me perguntando
Será que se esqueceram de me avisar
Pra qual direção olhar?

Ou talvez eu não tenha acordado
E esteja quebrado demais para acreditar
Que ainda há algo para ver
Algo a que vale a pena se agarrar

Minhas pernas cansaram de sustentar
O peso da incerteza, desolação
Sentimento de desperdício
Depois de tudo que eu tentei fazer certo

Eu sempre acabo voltando aqui
Depois de cada dia de caminhada
Ouvindo a mesma voz familiar
Me questionando o motivo disso tudo

É tudo tão bonito assim lá fora?
Ou as pessoas escondem a feiura
Por trás de seus sorrisos insistentes
Exagerados e contentes?

Tudo isso é complicado demais
Talvez porque eu pense muito
É que eu passo bastante tempo comigo mesmo
E, às vezes, isso cansa...

(Cesar Antelo Garcia)

domingo, 30 de março de 2014

O Medo Do Amor

"Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe por quê. 

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade. 

E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. 

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. 

Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo."


Martha Medeiros

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Apenas Um Fragmento...

"[...] Estranho como uma noite qualquer poderia aproximá-los tão de repente. Eles, que se viam tantas vezes, mas nunca trocaram mais que dez palavras nas raras conversas que tiveram, agora caminham juntos pela rua tentando achar um jeito de arquitetar um plano decente de diálogo, enquanto suas mentes tentam se recuperar do turbilhão que sofreram por causa das últimas horas.
      Lágrimas, soluços, primeiros socorros e perguntas. Muitas perguntas. Não é sempre que acontece um assalto por essas bandas, e com certeza não é sempre que um garoto com quem você mal tem intimidade vai se arriscar pra te salvar de um. As coisas aconteceram muito rápido para que ela lembrasse de detalhes que ajudassem a polícia a pegar o assaltante. Na verdade, ela não foi mesmo de muita ajuda. Mas ela dificilmente vai esquecer de como aquele garoto tímido que trabalha na lanchonete se tornaria seu salvador. É improvável que a polícia consiga prender o suspeito, mas o que se há de fazer? Talvez o melhor seja sair daqui. Não é surpresa que ele tenha educadamente pedido para acompanhá-la até em casa.
      No caminho de casa, ela percebe que o frio que sentia por essas ruas não incomoda mais tanto quanto antes. Seria a presença dele? Bobagem, eles mal se conhecem. Na verdade estão ali, se esforçando para criar assunto. Parece uma tarefa mais difícil do que andar sem escorregar na calçada parcialmente congelada. Às vezes ela se sente um pouco culpada por deixar de dar ouvidos ao que o rapaz de cabelos negros diz para vagar por seus pensamentos, imaginando que toda a segurança que a presença dele lhe traz pode desaparecer no momento em que ela entrar em seu quarto e se encontrar sozinha de novo, nessa noite especialmente mais escura. Ao mesmo tempo, ela se alegra em saber que o sorriso dele e sua voz levemente rouca a fazem esquecer dos terríveis momentos de horas atrás.
      De alguma forma, o cheiro da neve fresca parece combinar com o momento, e ela tem aquela sensação de leveza. Jamais esperava que a noite pudesse terminar assim. Parece que uma descarga de adrenalina realmente faz aguçar os sentidos, pois as luzes dos postes parecem ser curiosamente mais chamativas, e ela jamais admitiria, mas sente uma enorme vontade de satisfazer o seu tato ao segurar a mão dele. Seu coração palpitava e as palavras já pareciam fluir com mais naturalidade quando eles chegaram à porta de sua casa.

- ...Então até mais!
- Até! E, novamente, muito obrigada... Por tudo.
- Não por isso.

   Uma pausa se faz e ele a encara, fazendo com que o estômago dela fique da mesma temperatura que a rua lá fora.

- O que foi?
- Nada...
- Diga!
- ...É que por um instante eu olhei pra você e fiquei sem reação. Como se tivesse me encantado.
    
   Ela sorri sem jeito e desvia o olhar.

- Que será que eu faço?
- Como assim?
- Para fazer você se sentir como eu me senti agora. O que eu faço?
- Não sei...
- Bom, eu vou tentar uma coisa. Depois você me diz se deu certo...

    E de súbito, ele a puxou para si e selou o momento com um beijo cálido, sem tempo para reação. De repente, nada mais existia. Ela mal conseguia sentir o chão sob seus pés. Tudo girava desordenadamente, cores se misturavam, mesmo naquele escuro do fechar dos olhos. Nada fazia sentido, porém tudo estava mais claro que nunca. Ela foi carregada por cima das nuvens, como numa roda-gigante e a única fonte de segurança na qual ela poderia se apoiar para não cair, eram os braços dele."

(Cesar Antelo Garcia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ode À Primavera

Se eu quisesse paz em minha alma
O faria de maneiras que sempre recusei
Mas diante de sua calma
Me calei

Andava por avenidas e desertos de sonhos
Cantos entoados vindos das pegadas que deixei
Sua luz, por entre o praxe enfadonho,
Eu encontrei

Mil rostos preenchem a rua
É sempre o seu que eu acabo por lembrar
O brilho que dispara a lua
Se engrandece no seu caminhar

Serena, alma de perfumes cuja essência perdura
Só não me julgues por sempre me perder
Na sua inabalável doçura
Que eu hei de rever

Encanta e surpreende, ouso, e digo mais
Digo ou calo, meu impasse
Mas deixá-la ir, sem antes ouvir, jamais
Meu apreço não usa disfarce

Quero, de uma vez por todas, que me ensine
Que dom é esse que espanta a dor
Fazendo com que meu olhar se ilumine
Disseminando amor?

Presença que diverte, atrai e norteia
Afago-te a testa assim que partires
Guardo comigo o rosto que some na areia
E reflete na íris

Não temo a tormenta que vem por aí
Pode vir solidão, receio, coração despedaçado
Eu sei que quando ela ri
Toda ausência vira passado

Lembro de sua feição daquela vez
Cuidei para que não escapasse da memória
A extroversão da timidez
O presságio de uma bela história

É mais um dia que eu te dou a certeza
De explicar, com versos à sua altura,
Porquê tão sábia foi a natureza
Por te fazer tão pura

Apagou de mim esse vazio que aqui jaz
Seguiu seu caminho sem se preocupar com desvios
E em busca de sua própria paz
Escolheu o balanço dos navios

Rogo para que a primavera atenda aos meus apelos
Não permita que suma dos olhos dela as centelhas
Que corra livre com o vento nos cabelos
Por entre beija-flores e abelhas

E se ela tiver que ir
Que leve de mim apenas o que lhe fizer bem
Que lembre-se apenas de quando a fiz sorrir
E que o sorriso dela viva em mim também

Sem uma guia, sou apenas um andarilho
Em busca de um calor que me abrace
Me resta contemplar o brilho
Que hoje nasce

Sorrisos brotados brindam sua saída
E com eles eu me cubro
Por ter conhecido a mais bela flor trazida à vida

Em um certo 15 de outubro.

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 7 de setembro de 2013

Contra Mim

Quem luta contra mim ainda não sabe o que é perder
Quando eu me encontro novamente no ringue
Dispara em minha direção sem dar chance de me defender
Ainda que a palavra "piedade" exista em sua consciência
Duvido que seja uma de suas virtudes cultivadas desde nascença

Quem luta contra mim conhece minhas fraquezas
Quando eu procuro uma brecha para me manter de pé
Não tarda a me atingir com toda sua aspereza
Ignora meus conhecimentos e joga meus medos contra mim
Sabe que assim será mais fácil de me fazer desistir

Quem luta contra mim não tem cara
Quando eu penso ter compreendido
Aparece de surpresa e mostra que eu não aprendi nada
Não sei se é professor, não sei se é agressor, só sei que
Sempre mostra que não estou forte o suficiente para a próxima lição

Quem luta contra mim tem punhos de aço e coração feroz
Quando eu paro e medito em busca de uma solução
Vem gritando e desfazendo tudo de forma veloz
Invade minha cabeça e invalida qualquer epifania
Apaga as respostas e me deixa sem saída

Quem luta contra mim deixa uma trilha de desastre
Quando eu pareço ter achado um jeito de superar
Refuta minha tentativa com a facilidade de um mestre
Me priva de todo o aprendizado
E me faz reviver todo o sofrimento como se fosse o primeiro

Quem luta contra mim não me deixa em paz
Quando eu tento discutir e entender
Me contraria e me humilha de maneira eficaz
Não conhece diplomacia, não conhece acordo
Não tem vergonha do que faz, não tem medo de me ver morto

Quem luta contra mim parece estar cada vez mais forte
Quando eu me levanto para revidar
Se esguia e desfere o contragolpe
Fuzila minha estrutura com seus olhos de navalha
E me chuta quando ainda me encontro no chão

Quem luta contra mim
Sou eu mesmo.


(Cesar Antelo Garcia)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Saudade

Eu olhei pela janela
Vi passos em busca de atenção
Eu não vou fingir que ignorei
Apenas não soube como agir

Se alguém sente sua falta
Torne-se presente para quem deseja sua presença
Eu não vou fingir que não tentei
Apenas não vejo reação alguma

Eu sabia que as cores sumiriam
Mesmo quando até um sorriso branco era colorido
Eu não vou fingir que não sorrio
Apenas não tenho mais sua ajuda

Não adianta forçar importância
A escolha nunca foi sua
Eu não vou fingir que isso é fácil de aceitar
Apenas não quero te ver sofrer

E quando um dia você precisar
Sua importância pra mim nunca mudou
Eu não vou fingir que pensei em esquecer
Apenas prometa ser verdadeira comigo...


(Cesar Antelo Garcia)