quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Apenas Um Fragmento...

"[...] Estranho como uma noite qualquer poderia aproximá-los tão de repente. Eles, que se viam tantas vezes, mas nunca trocaram mais que dez palavras nas raras conversas que tiveram, agora caminham juntos pela rua tentando achar um jeito de arquitetar um plano decente de diálogo, enquanto suas mentes tentam se recuperar do turbilhão que sofreram por causa das últimas horas.
      Lágrimas, soluços, primeiros socorros e perguntas. Muitas perguntas. Não é sempre que acontece um assalto por essas bandas, e com certeza não é sempre que um garoto com quem você mal tem intimidade vai se arriscar pra te salvar de um. As coisas aconteceram muito rápido para que ela lembrasse de detalhes que ajudassem a polícia a pegar o assaltante. Na verdade, ela não foi mesmo de muita ajuda. Mas ela dificilmente vai esquecer de como aquele garoto tímido que trabalha na lanchonete se tornaria seu salvador. É improvável que a polícia consiga prender o suspeito, mas o que se há de fazer? Talvez o melhor seja sair daqui. Não é surpresa que ele tenha educadamente pedido para acompanhá-la até em casa.
      No caminho de casa, ela percebe que o frio que sentia por essas ruas não incomoda mais tanto quanto antes. Seria a presença dele? Bobagem, eles mal se conhecem. Na verdade estão ali, se esforçando para criar assunto. Parece uma tarefa mais difícil do que andar sem escorregar na calçada parcialmente congelada. Às vezes ela se sente um pouco culpada por deixar de dar ouvidos ao que o rapaz de cabelos negros diz para vagar por seus pensamentos, imaginando que toda a segurança que a presença dele lhe traz pode desaparecer no momento em que ela entrar em seu quarto e se encontrar sozinha de novo, nessa noite especialmente mais escura. Ao mesmo tempo, ela se alegra em saber que o sorriso dele e sua voz levemente rouca a fazem esquecer dos terríveis momentos de horas atrás.
      De alguma forma, o cheiro da neve fresca parece combinar com o momento, e ela tem aquela sensação de leveza. Jamais esperava que a noite pudesse terminar assim. Parece que uma descarga de adrenalina realmente faz aguçar os sentidos, pois as luzes dos postes parecem ser curiosamente mais chamativas, e ela jamais admitiria, mas sente uma enorme vontade de satisfazer o seu tato ao segurar a mão dele. Seu coração palpitava e as palavras já pareciam fluir com mais naturalidade quando eles chegaram à porta de sua casa.

- ...Então até mais!
- Até! E, novamente, muito obrigada... Por tudo.
- Não por isso.

   Uma pausa se faz e ele a encara, fazendo com que o estômago dela fique da mesma temperatura que a rua lá fora.

- O que foi?
- Nada...
- Diga!
- ...É que por um instante eu olhei pra você e fiquei sem reação. Como se tivesse me encantado.
    
   Ela sorri sem jeito e desvia o olhar.

- Que será que eu faço?
- Como assim?
- Para fazer você se sentir como eu me senti agora. O que eu faço?
- Não sei...
- Bom, eu vou tentar uma coisa. Depois você me diz se deu certo...

    E de súbito, ele a puxou para si e selou o momento com um beijo cálido, sem tempo para reação. De repente, nada mais existia. Ela mal conseguia sentir o chão sob seus pés. Tudo girava desordenadamente, cores se misturavam, mesmo naquele escuro do fechar dos olhos. Nada fazia sentido, porém tudo estava mais claro que nunca. Ela foi carregada por cima das nuvens, como numa roda-gigante e a única fonte de segurança na qual ela poderia se apoiar para não cair, eram os braços dele."

(Cesar Antelo Garcia)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ode À Primavera

Se eu quisesse paz em minha alma
O faria de maneiras que sempre recusei
Mas diante de sua calma
Me calei

Andava por avenidas e desertos de sonhos
Cantos entoados vindos das pegadas que deixei
Sua luz, por entre o praxe enfadonho,
Eu encontrei

Mil rostos preenchem a rua
É sempre o seu que eu acabo por lembrar
O brilho que dispara a lua
Se engrandece no seu caminhar

Serena, alma de perfumes cuja essência perdura
Só não me julgues por sempre me perder
Na sua inabalável doçura
Que eu hei de rever

Encanta e surpreende, ouso, e digo mais
Digo ou calo, meu impasse
Mas deixá-la ir, sem antes ouvir, jamais
Meu apreço não usa disfarce

Quero, de uma vez por todas, que me ensine
Que dom é esse que espanta a dor
Fazendo com que meu olhar se ilumine
Disseminando amor?

Presença que diverte, atrai e norteia
Afago-te a testa assim que partires
Guardo comigo o rosto que some na areia
E reflete na íris

Não temo a tormenta que vem por aí
Pode vir solidão, receio, coração despedaçado
Eu sei que quando ela ri
Toda ausência vira passado

Lembro de sua feição daquela vez
Cuidei para que não escapasse da memória
A extroversão da timidez
O presságio de uma bela história

É mais um dia que eu te dou a certeza
De explicar, com versos à sua altura,
Porquê tão sábia foi a natureza
Por te fazer tão pura

Apagou de mim esse vazio que aqui jaz
Seguiu seu caminho sem se preocupar com desvios
E em busca de sua própria paz
Escolheu o balanço dos navios

Rogo para que a primavera atenda aos meus apelos
Não permita que suma dos olhos dela as centelhas
Que corra livre com o vento nos cabelos
Por entre beija-flores e abelhas

E se ela tiver que ir
Que leve de mim apenas o que lhe fizer bem
Que lembre-se apenas de quando a fiz sorrir
E que o sorriso dela viva em mim também

Sem uma guia, sou apenas um andarilho
Em busca de um calor que me abrace
Me resta contemplar o brilho
Que hoje nasce

Sorrisos brotados brindam sua saída
E com eles eu me cubro
Por ter conhecido a mais bela flor trazida à vida

Em um certo 15 de outubro.

(Cesar Antelo Garcia)

sábado, 7 de setembro de 2013

Contra Mim

Quem luta contra mim ainda não sabe o que é perder
Quando eu me encontro novamente no ringue
Dispara em minha direção sem dar chance de me defender
Ainda que a palavra "piedade" exista em sua consciência
Duvido que seja uma de suas virtudes cultivadas desde nascença

Quem luta contra mim conhece minhas fraquezas
Quando eu procuro uma brecha para me manter de pé
Não tarda a me atingir com toda sua aspereza
Ignora meus conhecimentos e joga meus medos contra mim
Sabe que assim será mais fácil de me fazer desistir

Quem luta contra mim não tem cara
Quando eu penso ter compreendido
Aparece de surpresa e mostra que eu não aprendi nada
Não sei se é professor, não sei se é agressor, só sei que
Sempre mostra que não estou forte o suficiente para a próxima lição

Quem luta contra mim tem punhos de aço e coração feroz
Quando eu paro e medito em busca de uma solução
Vem gritando e desfazendo tudo de forma veloz
Invade minha cabeça e invalida qualquer epifania
Apaga as respostas e me deixa sem saída

Quem luta contra mim deixa uma trilha de desastre
Quando eu pareço ter achado um jeito de superar
Refuta minha tentativa com a facilidade de um mestre
Me priva de todo o aprendizado
E me faz reviver todo o sofrimento como se fosse o primeiro

Quem luta contra mim não me deixa em paz
Quando eu tento discutir e entender
Me contraria e me humilha de maneira eficaz
Não conhece diplomacia, não conhece acordo
Não tem vergonha do que faz, não tem medo de me ver morto

Quem luta contra mim parece estar cada vez mais forte
Quando eu me levanto para revidar
Se esguia e desfere o contragolpe
Fuzila minha estrutura com seus olhos de navalha
E me chuta quando ainda me encontro no chão

Quem luta contra mim
Sou eu mesmo.


(Cesar Antelo Garcia)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Saudade

Eu olhei pela janela
Vi passos em busca de atenção
Eu não vou fingir que ignorei
Apenas não soube como agir

Se alguém sente sua falta
Torne-se presente para quem deseja sua presença
Eu não vou fingir que não tentei
Apenas não vejo reação alguma

Eu sabia que as cores sumiriam
Mesmo quando até um sorriso branco era colorido
Eu não vou fingir que não sorrio
Apenas não tenho mais sua ajuda

Não adianta forçar importância
A escolha nunca foi sua
Eu não vou fingir que isso é fácil de aceitar
Apenas não quero te ver sofrer

E quando um dia você precisar
Sua importância pra mim nunca mudou
Eu não vou fingir que pensei em esquecer
Apenas prometa ser verdadeira comigo...


(Cesar Antelo Garcia)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Magnolia

"Ao passo que encaro seu caminhar 
Me pego no meio de uma multidão 
Mas antes que possa de mim se afastar 
Me posto a revelar o meu coração 

Espírito cuja essência transborda verdade 
Num reino que poucos ousam difamar 
Onde longe se esgueira a simplicidade 
Em seus braços ela vem a se encontrar 

Em busca de onde possa ouvir sua voz 
Cuja leveza de uma brisa ostenta 
Sigo como a água em direção à foz 
A fim de te achar, meu ritmo se sustenta 

Diante do rosto onde meu olhar se enraíza 
Vacilo ao me deparar com a visão de um anjo 
Arrisco versos dignos de sua guisa 
Meu bem, para você fiz este arranjo 

Em meio ao tropel a solitária estrela devaneia 
Absorto em meus pensamentos, onde eu a tinha 
Ungida de mistério e sedução de uma sereia 
Todos atentos ao desfilar da rainha!

Em seu olhar, a transparência de um prisma 
O nome dela é carisma 
Em seu coração, a pureza se aloca
O nome dela é carioca 
Em seu discurso, a sinceridade abre caminho 
O nome dela é carinho 
Em sua alma, exígua de malícia 
O nome dela é carícia..."

(Cesar Antelo Garcia) 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Monossilábico

Dê a mim a paz do céu
De um sol num tom de mel
Vem e me trai sem dó
Eis o meu eu nu, em pó.

Em sons de dor, não ter a voz
Pra ler a cor em um de nós
Te dar a flor na mão
E ver o sim em um não.


Eu, tão só, não dá pra crer
Fui, mas só pra não ver
O mal que me fez o sol teu
E ter fé no que há de ser
Meu.


(Cesar Antelo Garcia)

Foi

Foi.
Foi um lapso da mediocridade.
Uma distração da inércia, do tédio.
Uma surpresa. Arrebatadora. Inesperada.
Como não ser inesperada, sendo surpresa?
E se o seu desfecho fosse esperado? Ainda assim seria surpresa?

Foi.
Foi um risco no céu.
Um momento, multiplicado em vários.
Bivalentes. Impulsivos. Inconsequentes.
Um texto mal acabado. Iniciado por uma mão torta, trêmula.
Letras bonitas. Letras feias.

Foi.
Foi um amor de verão.
Um percalço na linearidade, na mesmice.
Uma renovação, na verdade. Uma novidade.
Um depósito de sonhos, fonte de força.
Realizações não realizadas. Presas. Desesperadas.

Foi.
Foi mais que isso.
Como sempre será, até que não seja mais.
Uma tela de diamantes num fundo azul marinho.
Um grito desesperado para ser calado.
Mas libertado mesmo assim. Não bem vindo.

Foi.
Foi o que deveria ter acontecido.
Pra te fazer buscar um porquê.
E quem precisa de porquê?
A vida não se preocupa com o que você precisa.
Se diverte ao ver sua alma em transe. Mutante. Agonizante.

Foi.
Foi tudo o que você queria.
Foi?
Foi necessário. Foi arranjado. Foi novo.
Foi desafiador. Foi discutido. Foi interrompido.
Foi devastado. Foi misterioso. Foi incógnito.
Foi marcante. Foi difícil. Foi lindo.
Foi você.
Você.
Se foi...

(Cesar Antelo Garcia)