Eu olhei pela janela
Vi passos em busca de atenção
Eu não vou fingir que ignorei
Apenas não soube como agir
Se alguém sente sua falta
Torne-se presente para quem deseja sua presença
Eu não vou fingir que não tentei
Apenas não vejo reação alguma
Eu sabia que as cores sumiriam
Mesmo quando até um sorriso branco era colorido
Eu não vou fingir que não sorrio
Apenas não tenho mais sua ajuda
Não adianta forçar importância
A escolha nunca foi sua
Eu não vou fingir que isso é fácil de aceitar
Apenas não quero te ver sofrer
E quando um dia você precisar
Sua importância pra mim nunca mudou
Eu não vou fingir que pensei em esquecer
Apenas prometa ser verdadeira comigo...
(Cesar Antelo Garcia)
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Magnolia
"Ao passo que encaro seu caminhar
Me pego no meio de uma multidão
Mas antes que possa de mim se afastar
Me posto a revelar o meu coração
Espírito cuja essência transborda verdade
Num reino que poucos ousam difamar
Onde longe se esgueira a simplicidade
Em seus braços ela vem a se encontrar
Em busca de onde possa ouvir sua voz
Cuja leveza de uma brisa ostenta
Sigo como a água em direção à foz
A fim de te achar, meu ritmo se sustenta
Diante do rosto onde meu olhar se enraíza
Vacilo ao me deparar com a visão de um anjo
Arrisco versos dignos de sua guisa
Meu bem, para você fiz este arranjo
Em meio ao tropel a solitária estrela devaneia
Absorto em meus pensamentos, onde eu a tinha
Ungida de mistério e sedução de uma sereia
Todos atentos ao desfilar da rainha!
Em seu olhar, a transparência de um prisma
O nome dela é carisma
Em seu coração, a pureza se aloca
O nome dela é carioca
Em seu discurso, a sinceridade abre caminho
O nome dela é carinho
Em sua alma, exígua de malícia
O nome dela é carícia..."
(Cesar Antelo Garcia)
Me pego no meio de uma multidão
Mas antes que possa de mim se afastar
Me posto a revelar o meu coração
Espírito cuja essência transborda verdade
Num reino que poucos ousam difamar
Onde longe se esgueira a simplicidade
Em seus braços ela vem a se encontrar
Em busca de onde possa ouvir sua voz
Cuja leveza de uma brisa ostenta
Sigo como a água em direção à foz
A fim de te achar, meu ritmo se sustenta
Diante do rosto onde meu olhar se enraíza
Vacilo ao me deparar com a visão de um anjo
Arrisco versos dignos de sua guisa
Meu bem, para você fiz este arranjo
Em meio ao tropel a solitária estrela devaneia
Absorto em meus pensamentos, onde eu a tinha
Ungida de mistério e sedução de uma sereia
Todos atentos ao desfilar da rainha!
Em seu olhar, a transparência de um prisma
O nome dela é carisma
Em seu coração, a pureza se aloca
O nome dela é carioca
Em seu discurso, a sinceridade abre caminho
O nome dela é carinho
Em sua alma, exígua de malícia
O nome dela é carícia..."
(Cesar Antelo Garcia)
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Monossilábico
Dê a mim a paz do céu
De um sol num tom de mel
Vem e me trai sem dó
Eis o meu eu nu, em pó.
Em sons de dor, não ter a voz
Pra ler a cor em um de nós
Te dar a flor na mão
E ver o sim em um não.
Eu, tão só, não dá pra crer
Fui, mas só pra não ver
O mal que me fez o sol teu
E ter fé no que há de ser
Meu.
(Cesar Antelo Garcia)
De um sol num tom de mel
Vem e me trai sem dó
Eis o meu eu nu, em pó.
Em sons de dor, não ter a voz
Pra ler a cor em um de nós
Te dar a flor na mão
E ver o sim em um não.
Eu, tão só, não dá pra crer
Fui, mas só pra não ver
O mal que me fez o sol teu
E ter fé no que há de ser
Meu.
(Cesar Antelo Garcia)
Foi
Foi.Foi um lapso da mediocridade.
Uma distração da inércia, do tédio.
Uma surpresa. Arrebatadora. Inesperada.
Como não ser inesperada, sendo surpresa?
E se o seu desfecho fosse esperado? Ainda assim seria surpresa?
Foi.
Foi um risco no céu.
Um momento, multiplicado em vários.
Bivalentes. Impulsivos. Inconsequentes.
Um texto mal acabado. Iniciado por uma mão torta, trêmula.
Letras bonitas. Letras feias.
Foi.
Foi um amor de verão.
Um percalço na linearidade, na mesmice.
Uma renovação, na verdade. Uma novidade.
Um depósito de sonhos, fonte de força.
Realizações não realizadas. Presas. Desesperadas.
Foi.
Foi mais que isso.
Como sempre será, até que não seja mais.
Uma tela de diamantes num fundo azul marinho.
Um grito desesperado para ser calado.
Mas libertado mesmo assim. Não bem vindo.
Foi.
Foi o que deveria ter acontecido.
Pra te fazer buscar um porquê.
E quem precisa de porquê?
A vida não se preocupa com o que você precisa.
Se diverte ao ver sua alma em transe. Mutante. Agonizante.
Foi.
Foi tudo o que você queria.
Foi?
Foi necessário. Foi arranjado. Foi novo.
Foi desafiador. Foi discutido. Foi interrompido.
Foi devastado. Foi misterioso. Foi incógnito.
Foi marcante. Foi difícil. Foi lindo.
Foi você.
Você.
Se foi...
(Cesar Antelo Garcia)
A Promessa
Já faz anos. Sua memória
continua gritante em mim. Seu rosto, seu jeito, sua voz, seu cheiro.
Tudo como se ainda estivesse do meu lado. Mas já faz anos que não está
mais.
Me levanto e olho pela janela. Procuro as surpresas que o novo Sol me traz nesse dia. Encontro apenas minhas obrigações costumeiras.
Abro o armário para me atirar na vida mais uma vez. Mais um dia vazio.
A campainha toca. Minha mãe vai atender enquanto perambulo pelas roupas. Eis que num súbito movimento, ela para diante da porta com uma expressão otimista. Anuncia: é ela. Arregalo meus olhos e corro em direção à sacada. É verdade. Ela está ali. Me viro e vou de encontro ao meu vislumbre.
Minhas pernas mudam de longos saltos para passos curtos. Fracas, incontroláveis, trêmulas. Imóveis. Todas as cores começam a se misturar e desfazer a figura do que há em volta. De repente, tudo fica preto.
Abro os olhos com o coração a mil. Olho em volta duas, três, quatro vezes. Mesma escuridão. Chamo pelo seu nome, primeiro, com um lamento, seguido de um sussurro abafado.
Finalmente olho para frente e me ponho a chorar. Forço para que o choro seja cada vez mais compulsivo, pois as lágrimas são como os demônios que acabaram de chegar para zombar de mim. Preciso me livrar deles.
Chega o momento em que minhas pálpebras se cansam de abrir, pois sei que continuar a te procurar aqui é inútil. Elas permanecem fechadas, até que outro sonho vem e apaga, por algumas horas, a tortura, me transportando para uma nova promessa.
Amanhã é um novo dia.
(Cesar Antelo Garcia)
Me levanto e olho pela janela. Procuro as surpresas que o novo Sol me traz nesse dia. Encontro apenas minhas obrigações costumeiras.
Abro o armário para me atirar na vida mais uma vez. Mais um dia vazio.
A campainha toca. Minha mãe vai atender enquanto perambulo pelas roupas. Eis que num súbito movimento, ela para diante da porta com uma expressão otimista. Anuncia: é ela. Arregalo meus olhos e corro em direção à sacada. É verdade. Ela está ali. Me viro e vou de encontro ao meu vislumbre.
Minhas pernas mudam de longos saltos para passos curtos. Fracas, incontroláveis, trêmulas. Imóveis. Todas as cores começam a se misturar e desfazer a figura do que há em volta. De repente, tudo fica preto.
Abro os olhos com o coração a mil. Olho em volta duas, três, quatro vezes. Mesma escuridão. Chamo pelo seu nome, primeiro, com um lamento, seguido de um sussurro abafado.
Finalmente olho para frente e me ponho a chorar. Forço para que o choro seja cada vez mais compulsivo, pois as lágrimas são como os demônios que acabaram de chegar para zombar de mim. Preciso me livrar deles.
Chega o momento em que minhas pálpebras se cansam de abrir, pois sei que continuar a te procurar aqui é inútil. Elas permanecem fechadas, até que outro sonho vem e apaga, por algumas horas, a tortura, me transportando para uma nova promessa.
Amanhã é um novo dia.
(Cesar Antelo Garcia)
Três Tempos
Ontem se fez a peculiaridade e confidencialidade de um baile de máscaras
E 1 e 2 e 3... E o ritmo se perdeu quando você enjoou da música
Você saiu por aquela porta, mas o maestro continuou seu espetáculo
E aqui estou eu. Ainda há pessoas que, como eu, querem aprender os movimentos
Ainda há quem procure entender seu papel, e a lição em cada perda
Hoje a melodia segue mais suave, dita o rumo da aprendizagem
Superação faz parte, pois cair também faz
Máxima que se torna notória com o destino constantemente puxando seu tapete
Mas a instrução está lá, e meu suor e minhas lágrimas caindo do rosto são a prova de que eu também estou
Amanhã estarei cada vez mais perto de conseguir
Curiosamente sem saber se um dia serei capaz de tal façanha
O que conta é que persisti, ao lado dos outros
E um dia você estará de volta, na janela da sala de aula, observando o meu triunfo
E ontem eu caí
E hoje eu levantei
E amanhã vencerei
Em três tempos eu canto a minha dor, ouço meu lamento e reúno minhas forças
Sigo desafiando a gravidade e as leis de tudo
Para entender, refletir, descobrir e aprender os passos da dança da vida.
(Cesar Antelo Garcia)
E 1 e 2 e 3... E o ritmo se perdeu quando você enjoou da música
Você saiu por aquela porta, mas o maestro continuou seu espetáculo
E aqui estou eu. Ainda há pessoas que, como eu, querem aprender os movimentos
Ainda há quem procure entender seu papel, e a lição em cada perda
Hoje a melodia segue mais suave, dita o rumo da aprendizagem
Superação faz parte, pois cair também faz
Máxima que se torna notória com o destino constantemente puxando seu tapete
Mas a instrução está lá, e meu suor e minhas lágrimas caindo do rosto são a prova de que eu também estou
Amanhã estarei cada vez mais perto de conseguir
Curiosamente sem saber se um dia serei capaz de tal façanha
O que conta é que persisti, ao lado dos outros
E um dia você estará de volta, na janela da sala de aula, observando o meu triunfo
E ontem eu caí
E hoje eu levantei
E amanhã vencerei
Em três tempos eu canto a minha dor, ouço meu lamento e reúno minhas forças
Sigo desafiando a gravidade e as leis de tudo
Para entender, refletir, descobrir e aprender os passos da dança da vida.
(Cesar Antelo Garcia)
Contagem Regressiva
Hoje o dia amanheceu ensolarado
O vento corria e as folhas das árvores dançavam ao som dos cachorros latindo
Estranhamente, acordei um pouco mais cedo do que de costume
Tirei o tempo para pensar nas coisas da vida
E de que como tudo parece certo, mas sempre parece faltar alguma coisa
Meu sorriso raramente consegue ser completo
O dia está lindo, as pessoas na rua estão felizes e o café está na mesa
Curiosamente, nada disso me satisfaz mais.
E isso vem acontecendo com muita frequência ultimamente
Nada parece fazer sentido. Nada parece valer a pena
Cansei e estabeleci uma decisão
Tenho 5 dias de vida
Um novo dia. As gotas de chuva batem na janela
Aquela angústia acordou comigo
Por que não permanece adormecida mais um pouco e me permite alguns minutos de alívio?
Não, ela insiste. Parece que gosta da minha companhia. Parece minha única amiga
Levanto e saio para um dia cinza. Nada me chama atenção
Nada começa. Ninguém acontece
Parece que minha decisão de pôr um fim no meu sofrimento de uma vez por todas permanece intacta
Tenho 4 dias de vida
Dessa vez acho que acordei com uma cabeça diferente
Vamos parar com isso, vamos viver
Saio e encontro com meus amigos
Rimos, conversamos, nos abraçamos, brigamos, bebemos e nos abraçamos de novo
Todas as minhas preocupações parecem desaparecer com cada som de tiro vindo do video game
Estou em paz de novo, rodeado por quem se importa comigo
Me despeço e mergulho na rua escura
Sinto uma presença a me perseguir. Olho pra trás
É você, depressão...
Não pode me ver sozinho que já volta a tentar me aquecer com seu abraço
Tento lhe dizer que seu abraço é mais frio que uma noite de inverno. Em vão
Minha família me recebe com um sorriso estampado no rosto. Permaneço mórbido
Me preparo para deitar e sou abordado pelas lembranças de tudo o que já deu errado
Aquela paz de horas antes, me abandonou. Bobagem achar que um dia mudaria tudo
Vou dormir cada vez mais certo do meu destino
E a decisão, que antes parecia intacta de pôr um fim em tudo, hoje parece ainda mais motivada
Tenho 3 dias de vida
Fui acordado pelo entregador hoje de manhã
Ainda sonolento, perambulo até a cama e me entrego ao sono novamente
O mundo dos sonhos tem sido minha única escapatória para as recentes pontadas e socos gelados na alma
Um barulho brusco de freios seguido de uma batida interrompe minha trégua com a dor
Um motorista distraído na esquina quase causa um acidente
Nenhum ferido. Apenas o susto
Fora isso, foi mais um dia morto
Meu prazo me encara cada vez mais de perto
Tenho 2 dias de vida
Hoje pensei em ir na casa de tanta gente
Como seria olhar nos olhos de cada um, sabendo que seria a última vez, sem que eles desconfiassem disso?
Teria eu a coragem? Quantas pessoas valem o esforço?
Quantas demonstraram todo o valor de uma amizade ou de um amor que os personagens demonstram nos filmes?
Meus pensamentos ricocheteam de um lado para o outro no meu cérebro, até que paro
Desisto. Melhor não ir ver ninguém. Não quero que minha última imagem pra eles seja tão casual
Principalmente, não quero que ninguém suspeite da atitude que tomarei em breve
Tenho 1 dia de vida
É hoje... Antes que tudo dê espaço para a solução final, preciso cuidar de algumas coisas
Analiso umas fotos, passo a mão na cabeça ao recordar certos momentos felizes
Momentos de quando eu não pensava tanto. Momentos de quando eu não me cobrava tanto nem cobrava dos outros
Rasgo algumas delas. Momentos que não queria lembrar. Momentos que me deixam mais certo do que está por vir. Momentos
Sei o que fazer. Apenas não sei como executar. Qual o método menos doloroso, menos chamativo...
Preciso sair e comprar a comida dos meus bichos antes disso. Não quero que passem fome depois de tudo
Afinal, foram eles que me fizeram companhia quando não havia mais ninguém por perto. Um último presente antes que eu me vá
No caminho de volta, me deparo com uma tragédia iminente
Uma família se separa ao atravessar a rua, pois o pai ficou de um lado da calçada para falar com um amigo
Ao atravessar para o outro lado onde seu carro, sua mulher e sua filha estavam, ele pisa em falso e torce o pé, não conseguindo levantar
Nisso, um ônibus vem a toda velocidade. Frear seria inútil, o impacto era certo
Sem pensar duas vezes, me atiro em direção à rua, apóio o homem em meu ombro e o livro da morte certa
Sua filha e sua mulher me agradecem encharcadas de lágrimas enquanto o homem me abraça, completamente sem palavras, enquanto eu reparo que o ônibus havia passado tão perto, que havia rasgado a minha camisa
Aquela família, aquele homem poderia ter perdido tudo, sem planejar, sem esperar por isso
Chego em casa, coloco a comida para meus cachorros, arrumo a casa, deixo tudo no lugar. Como deve ser
Me preparo... Olho para o relógio. Penso novamente em tudo o que deu errado. Em todos os planos que fiz e que não se concretizaram. Em todas as pessoas que eu decepcionei. Em todas as pessoas que me decepcionaram. Em todas as vezes que sofri, não por ter me calado, mas por ter colocado tudo pra fora, apenas para não ter retorno. Em todas as vezes que lutei e perdi. Em todas as chances que deixei passar. Em todas as chances que não se apresentaram para mim. Em todos os dias que amanheceram ensolarados, mas que acabaram comigo indo dormir chorando.
Pensamentos que repeti nos últimos 5 dias. Mas hoje teve uma diferença. Hoje encerrei minha noite com um novo pensamento: sobre a vida que eu salvei. Sobre como todas as coisas deram errado para mim, mas poderiam ter acabado muito pior para alguém que não estava se preparando como eu. Sobre como eu me importei com um desconhecido, quando estava pronto para não me importar nem comigo mesmo ou com as pessoas que me amam. Sobre como fiz alguém agradecer, dali em diante, por todos os dias de sua vida. Sobre como eu pareci me preparar para acabar com todas as minhas chances, para garantir uma segunda chance a uma pessoa...
E então, pela primeira vez em muito tempo... Eu vou dormir sorrindo.
Agora, eu tenho todo o resto dos meus dias de vida.
(Cesar Antelo Garcia)
O vento corria e as folhas das árvores dançavam ao som dos cachorros latindo
Estranhamente, acordei um pouco mais cedo do que de costume
Tirei o tempo para pensar nas coisas da vida
E de que como tudo parece certo, mas sempre parece faltar alguma coisa
Meu sorriso raramente consegue ser completo
O dia está lindo, as pessoas na rua estão felizes e o café está na mesa
Curiosamente, nada disso me satisfaz mais.
E isso vem acontecendo com muita frequência ultimamente
Nada parece fazer sentido. Nada parece valer a pena
Cansei e estabeleci uma decisão
Tenho 5 dias de vida
Um novo dia. As gotas de chuva batem na janela
Aquela angústia acordou comigo
Por que não permanece adormecida mais um pouco e me permite alguns minutos de alívio?
Não, ela insiste. Parece que gosta da minha companhia. Parece minha única amiga
Levanto e saio para um dia cinza. Nada me chama atenção
Nada começa. Ninguém acontece
Parece que minha decisão de pôr um fim no meu sofrimento de uma vez por todas permanece intacta
Tenho 4 dias de vida
Dessa vez acho que acordei com uma cabeça diferente
Vamos parar com isso, vamos viver
Saio e encontro com meus amigos
Rimos, conversamos, nos abraçamos, brigamos, bebemos e nos abraçamos de novo
Todas as minhas preocupações parecem desaparecer com cada som de tiro vindo do video game
Estou em paz de novo, rodeado por quem se importa comigo
Me despeço e mergulho na rua escura
Sinto uma presença a me perseguir. Olho pra trás
É você, depressão...
Não pode me ver sozinho que já volta a tentar me aquecer com seu abraço
Tento lhe dizer que seu abraço é mais frio que uma noite de inverno. Em vão
Minha família me recebe com um sorriso estampado no rosto. Permaneço mórbido
Me preparo para deitar e sou abordado pelas lembranças de tudo o que já deu errado
Aquela paz de horas antes, me abandonou. Bobagem achar que um dia mudaria tudo
Vou dormir cada vez mais certo do meu destino
E a decisão, que antes parecia intacta de pôr um fim em tudo, hoje parece ainda mais motivada
Tenho 3 dias de vida
Fui acordado pelo entregador hoje de manhã
Ainda sonolento, perambulo até a cama e me entrego ao sono novamente
O mundo dos sonhos tem sido minha única escapatória para as recentes pontadas e socos gelados na alma
Um barulho brusco de freios seguido de uma batida interrompe minha trégua com a dor
Um motorista distraído na esquina quase causa um acidente
Nenhum ferido. Apenas o susto
Fora isso, foi mais um dia morto
Meu prazo me encara cada vez mais de perto
Tenho 2 dias de vida
Hoje pensei em ir na casa de tanta gente
Como seria olhar nos olhos de cada um, sabendo que seria a última vez, sem que eles desconfiassem disso?
Teria eu a coragem? Quantas pessoas valem o esforço?
Quantas demonstraram todo o valor de uma amizade ou de um amor que os personagens demonstram nos filmes?
Meus pensamentos ricocheteam de um lado para o outro no meu cérebro, até que paro
Desisto. Melhor não ir ver ninguém. Não quero que minha última imagem pra eles seja tão casual
Principalmente, não quero que ninguém suspeite da atitude que tomarei em breve
Tenho 1 dia de vida
É hoje... Antes que tudo dê espaço para a solução final, preciso cuidar de algumas coisas
Analiso umas fotos, passo a mão na cabeça ao recordar certos momentos felizes
Momentos de quando eu não pensava tanto. Momentos de quando eu não me cobrava tanto nem cobrava dos outros
Rasgo algumas delas. Momentos que não queria lembrar. Momentos que me deixam mais certo do que está por vir. Momentos
Sei o que fazer. Apenas não sei como executar. Qual o método menos doloroso, menos chamativo...
Preciso sair e comprar a comida dos meus bichos antes disso. Não quero que passem fome depois de tudo
Afinal, foram eles que me fizeram companhia quando não havia mais ninguém por perto. Um último presente antes que eu me vá
No caminho de volta, me deparo com uma tragédia iminente
Uma família se separa ao atravessar a rua, pois o pai ficou de um lado da calçada para falar com um amigo
Ao atravessar para o outro lado onde seu carro, sua mulher e sua filha estavam, ele pisa em falso e torce o pé, não conseguindo levantar
Nisso, um ônibus vem a toda velocidade. Frear seria inútil, o impacto era certo
Sem pensar duas vezes, me atiro em direção à rua, apóio o homem em meu ombro e o livro da morte certa
Sua filha e sua mulher me agradecem encharcadas de lágrimas enquanto o homem me abraça, completamente sem palavras, enquanto eu reparo que o ônibus havia passado tão perto, que havia rasgado a minha camisa
Aquela família, aquele homem poderia ter perdido tudo, sem planejar, sem esperar por isso
Chego em casa, coloco a comida para meus cachorros, arrumo a casa, deixo tudo no lugar. Como deve ser
Me preparo... Olho para o relógio. Penso novamente em tudo o que deu errado. Em todos os planos que fiz e que não se concretizaram. Em todas as pessoas que eu decepcionei. Em todas as pessoas que me decepcionaram. Em todas as vezes que sofri, não por ter me calado, mas por ter colocado tudo pra fora, apenas para não ter retorno. Em todas as vezes que lutei e perdi. Em todas as chances que deixei passar. Em todas as chances que não se apresentaram para mim. Em todos os dias que amanheceram ensolarados, mas que acabaram comigo indo dormir chorando.
Pensamentos que repeti nos últimos 5 dias. Mas hoje teve uma diferença. Hoje encerrei minha noite com um novo pensamento: sobre a vida que eu salvei. Sobre como todas as coisas deram errado para mim, mas poderiam ter acabado muito pior para alguém que não estava se preparando como eu. Sobre como eu me importei com um desconhecido, quando estava pronto para não me importar nem comigo mesmo ou com as pessoas que me amam. Sobre como fiz alguém agradecer, dali em diante, por todos os dias de sua vida. Sobre como eu pareci me preparar para acabar com todas as minhas chances, para garantir uma segunda chance a uma pessoa...
E então, pela primeira vez em muito tempo... Eu vou dormir sorrindo.
Agora, eu tenho todo o resto dos meus dias de vida.
(Cesar Antelo Garcia)
Flor do Cerrado
Um casal vivia a sua época de ouro. Não paravam de sair, não paravam
de se ver, viviam pensando um no outro, e eram praticamente filhos de
seus sogros.Tudo caminhava da melhor forma possível.
Um belo dia, o rapaz decidiu tomar uma decisão importante... Após acordar sua namorada gentilmente na cama, ele tirou do bolso uma linda flor e disse a ela:
- Bom dia, meu amor. Dormiu bem?
- Dormi sim, querido.
- Que bom... Escuta, eu tenho um presente pra você.
- O que é?
- Esta flor aqui...
- Que linda!
- Pois é. O nome dela é "Lavoisiera harleyi", eu nunca soube se ela tem um nome popular... É uma flor rara e muito resistente que eu peguei durante uma excursão no cerrado da qual eu participei um tempo atrás... E eu venho cuidando dela desde então.
- Eu não sabia que você tinha bom gosto para flores.
Os dois compartilham algumas risadas e então ele retoma:
- Eu gostaria de te pedir uma coisa, amor. É quase um desafio...
- Diga.
- Eu gostaria de dar essa flor a você. E pedir que me prometa que vai cuidar dela com todo o amor e carinho que você puder, pois essa flor representará o nosso sentimento, a perpetuação da nossa união.
Lembre-se disso: enquanto essa flor estiver viva e saudável, nosso amor vai estar firme e forte. Pode me prometer isso?
- Sim, eu prometo, meu amor!
Ambos trocaram abraços apertados e beijos apaixonados por dois ou três minutos.
Depois de examinar a flor com cuidado, a moça descobre escondida entre as pétalas uma aliança. Ela olha para o rapaz com uma expressão de surpresa, que logo é substituída pelo sorriso mais belo, largo e sincero que ele já havia visto. Eles ficaram noivos naquele mesmo dia.
Poucos meses depois eles estavam se casando e dando início a uma bela história. As coisas iam melhor do que na época de namorados. Viajavam juntos, faziam planos, ajudavam um ao outro nos momentos de dificuldade e com muito esforço, compraram sua própria casa.
Brigavam muito também, é claro, mas tudo se resolvia no final. Até adotaram um cachorro e estavam começando a pensar em ter filhos.
Mas depois de um tempo, o homem começou a reparar em como a flor que ele havia dado de presente à sua mulher estava parecendo meio desgastada, murcha, e isso fez com que ele se lembrasse da promessa que ela havia feito quando a pediu em casamento. Isso foi deixando-o cada vez mais decepcionado com o passar do tempo.
Ele foi se afastando aos poucos, mostrava-se desanimado para os planos e idéias que havia construído com sua esposa e não importa quantas vezes ela perguntasse o que havia de errado, ele sempre dizia a mesma coisa: que não era nada, que só estava cansado por causa do serviço. E ela aceitava aquilo quieta, para não fazer pressão.
Um belo dia, ele apareceu completamente vestido de roupa formal e disse à sua mulher que ficaria fora por uns dias, a trabalho.
A mulher deu-lhe um beijo carinhoso e despediu-se dele. Ele saiu sem olhar para trás.
Os dias transformaram-se em semanas. O desespero dela só aumentava. Não recebia notícias dele desde que havia partido e estava começando a temer o pior. À medida que o tempo passava, mais ela temia pelo bem do seu marido e mais distraída ela ficava. Ela já mal comia. Toda essa aflição a fez esquecer completamente de cuidar da flor.
Depois de um tempo, eis que o homem aparece novamente em casa. Sua mulher corre para a porta da frente e o recebe eufórica, quase chorando:
- Meu amor! Graças a Deus! Por onde você esteve, o que aconteceu? Eu fiquei muito preocupada com você! Por que você fez isso comigo, eu não merecia! Eu fiquei esse tempo todo sem saber notícias suas... É essa a consideração que você tem por mim?
O homem desvia o olhar e repara no vaso da mesa de centro da sala: a flor estava totalmente abandonada, morta. Não refletia nem parte da beleza que ela esbanjava no início.
Ao perceber o gesto do marido, a mulher calou-se e entregou-se por completo ao choro. Lembrou de uma vez da promessa que havia feito, meses atrás.
-... Querido, me desculpe... Faz tempo que você andava diferente, eu não sabia mais o que pensar, e essa sua ausência só me deixou mais aflita... Eu esqueci completamente de cuidar da nossa flor, mas não fiz de propósito... Por favor, me perdoe, o meu amor por você não acabou! Me desculpe...
Ele olhava em seus olhos com uma intensidade esmagadora que apertava o coração da pobre mulher. Até que, sem dar uma palavra, deu meia volta e caminhou até seu carro.
A mulher entrou em desespero. Gritava o nome dele, implorava para que ficasse e pedia mil desculpas.
Sem dar atenção, o homem continuou andando. Assim, ela encostou na porta e deslizou lentamente até o chão. Desolada, desesperançosa, enxugava o rosto enquanto via seu marido se afastar...
Porém, menos de um minuto depois, ela olha para frente e o vê saindo do seu carro e se aproximando novamente, trazendo algo em sua mão, que ele havia escondido atrás de si. Então, com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios, ele diz:
- Me desculpe pela demora, querida... Mas eu não podia deixar nosso amor morrer assim...
Eis que ele revela o que vinha trazendo... Um buquê, feito completamente de "Harleyis"...
(Cesar Antelo Garcia)
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