segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Flor do Cerrado

Um casal vivia a sua época de ouro. Não paravam de sair, não paravam de se ver, viviam pensando um no outro, e eram praticamente filhos de seus sogros.
Tudo caminhava da melhor forma possível.
Um belo dia, o rapaz decidiu tomar uma decisão importante... Após acordar sua namorada gentilmente na cama, ele tirou do bolso uma linda flor e disse a ela:
- Bom dia, meu amor. Dormiu bem?
- Dormi sim, querido.
- Que bom... Escuta, eu tenho um presente pra você.
- O que é?
- Esta flor aqui...
- Que linda!
- Pois é. O nome dela é "Lavoisiera harleyi", eu nunca soube se ela tem um nome popular... É uma flor rara e muito resistente que eu peguei durante uma excursão no cerrado da qual eu participei um tempo atrás... E eu venho cuidando dela desde então.
- Eu não sabia que você tinha bom gosto para flores.
Os dois compartilham algumas risadas e então ele retoma:
- Eu gostaria de te pedir uma coisa, amor. É quase um desafio...
- Diga.
- Eu gostaria de dar essa flor a você. E pedir que me prometa que vai cuidar dela com todo o amor e carinho que você puder, pois essa flor representará o nosso sentimento, a perpetuação da nossa união.
 Lembre-se disso: enquanto essa flor estiver viva e saudável, nosso amor vai estar firme e forte. Pode me prometer isso?
- Sim, eu prometo, meu amor!

Ambos trocaram abraços apertados e beijos apaixonados por dois ou três minutos.
Depois de examinar a flor com cuidado, a moça descobre escondida entre as pétalas uma aliança. Ela olha para o rapaz com uma expressão de surpresa, que logo é substituída pelo sorriso mais belo, largo e sincero que ele já havia visto. Eles ficaram noivos naquele mesmo dia.
Poucos meses depois eles estavam se casando e dando início a uma bela história. As coisas iam melhor do que na época de namorados. Viajavam juntos, faziam planos, ajudavam um ao outro nos momentos de dificuldade e com muito esforço, compraram sua própria casa.
Brigavam muito também, é claro, mas tudo se resolvia no final. Até adotaram um cachorro e estavam começando a pensar em ter filhos.
Mas depois de um tempo, o homem começou a reparar em como a flor que ele havia dado de presente à sua mulher estava parecendo meio desgastada, murcha, e isso fez com que ele se lembrasse da promessa que ela havia feito quando a pediu em casamento. Isso foi deixando-o cada vez mais decepcionado com o passar do tempo.
Ele foi se afastando aos poucos, mostrava-se desanimado para os planos e idéias que havia construído com sua esposa e não importa quantas vezes ela perguntasse o que havia de errado, ele sempre dizia a mesma coisa: que não era nada, que só estava cansado por causa do serviço. E ela aceitava aquilo quieta, para não fazer pressão.
Um belo dia, ele apareceu completamente vestido de roupa formal e disse à sua mulher que ficaria fora por uns dias, a trabalho.
A mulher deu-lhe um beijo carinhoso e despediu-se dele. Ele saiu sem olhar para trás.

Os dias transformaram-se em semanas. O desespero dela só aumentava. Não recebia notícias dele desde que havia partido e estava começando a temer o pior. À medida que o tempo passava, mais ela temia pelo bem do seu marido e mais distraída ela ficava. Ela já mal comia. Toda essa aflição a fez esquecer completamente de cuidar da flor.
Depois de um tempo, eis que o homem aparece novamente em casa. Sua mulher corre para a porta da frente e o recebe eufórica, quase chorando:
- Meu amor! Graças a Deus! Por onde você esteve, o que aconteceu? Eu fiquei muito preocupada com você! Por que você fez isso comigo, eu não merecia! Eu fiquei esse tempo todo sem saber notícias suas... É essa a consideração que você tem por mim?
O homem desvia o olhar e repara no vaso da mesa de centro da sala: a flor estava totalmente abandonada, morta. Não refletia nem parte da beleza que ela esbanjava no início.
Ao perceber o gesto do marido, a mulher calou-se e entregou-se por completo ao choro. Lembrou de uma vez da promessa que havia feito, meses atrás.
-... Querido, me desculpe... Faz tempo que você andava diferente, eu não sabia mais o que pensar, e essa sua ausência só me deixou mais aflita... Eu esqueci completamente de cuidar da nossa flor, mas não fiz de propósito... Por favor, me perdoe, o meu amor por você não acabou! Me desculpe...
Ele olhava em seus olhos com uma intensidade esmagadora que apertava o coração da pobre mulher. Até que, sem dar uma palavra, deu meia volta e caminhou até seu carro.
A mulher entrou em desespero. Gritava o nome dele, implorava para que ficasse e pedia mil desculpas.
Sem dar atenção, o homem continuou andando. Assim, ela encostou na porta e deslizou lentamente até o chão. Desolada, desesperançosa, enxugava o rosto enquanto via seu marido se afastar...
Porém, menos de um minuto depois, ela olha para frente e o vê saindo do seu carro e se aproximando novamente, trazendo algo em sua mão, que ele havia escondido atrás de si. Então, com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios, ele diz:
- Me desculpe pela demora, querida... Mas eu não podia deixar nosso amor morrer assim...
Eis que ele revela o que vinha trazendo... Um buquê, feito completamente de "Harleyis"...

(Cesar Antelo Garcia)

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